Igomer Brandi

Com um toque refinado a crônica está de volta : Mineiro de Nova Era , bancário aposentado , bacharel em Direito, residente em Governador Valadares - MG , IGOMER BRANDI , meu pai , nos apresenta este livro de crônicas " Um Dia Depois do Outro " , que antes de tudo é uma sensível investida no cotidiano de todos nós , a desvendar fatos corriqueiros que estamos já acostumados a presenciar . A crônica está de volta em alto nível , com a criatividade necessária para divertir , enternecer e emocionar . O livro pode ser adquirido pelo valor de R$ 15,00 através de vale-postal , cheque nominal ou depósito bancário . Mande um e-mail para o autor ou escreva para o seguinte endereço : Rua Monte Azul nr 45 , Bairro Esperança , Governador Valadares - MG , Cep 35058-140 . Fone : 33 32761194 .


Segue abaixo algumas crônicas do autor Igomer Brandi :

O caso da moça que viajou de Belo Horizonte a Governador Valadares para levar um copo.

Apelando para a frase bastante conhecida , falada e repetida originalmente em língua espanhola , digo que eu também não acredito em bruxas , mas que elas existem , existem .

Durante algum tempo , e muito recentemente , começou a acontecer em minha casa uma coisa muito estranha e inusitada . Copos (americanos) começaram a se quebrar sozinhos , sem acidente e sem a ação de nenhum ser vivo . Alguém ia pegar um copo na pia , na mesa ou no armário , e lá vinha um pedaço do mesmo , ficando outro pedaço , o fundo , no lugar de origem . Mesmo incucado com tais acontecimentos , não pensei em guardar os cacos para futura análise por parte do fabricante , o que só fiz com o quinto ou sexto que se quebrou .

Os consumidores têm hoje um recurso , o 0800 que as empresas mais bem estruturadas colocam à sua disposição para reclamações e sugestões . Liguei . A moça , muito bem treinada para o oficio , do outro lado da linha , anotou tudo sobre meu estranho relato , gastou um bom tempo preenchendo uma verdadeira ficha cadastral minha : nome , endereço , profissão , CPF , estado civil , essas coisas e mais : quantos copos se quebraram , quantos eu havia comprado , quantos eu guardara , onde , como , porque , para que , etc ...etc ... .

Passaram-se os dias , passou-se o tempo , eu já havia até me esquecido , quando numa tarde de sábado , bateram à minha porta . Era a representante da empresa fabricante dos copos . Esbaforida , suada , reclamando do calor de Valadares , trazia na mão uma enorme sacola com o logotipo da firma . Identificou-se , pediu-me o copo quebrado e foi embora desculpando-se pela pressa , deixando comigo a sacola , que achei muito leve e pensei tratar-se apenas de um brinde . Por curiosidade abri a sacola que me parecia vazia de tão leve e quase caí duro ao constatar o que havia dentro : UM copo !...

Estupefato , minha reação foi correr atrás da moça , chamá-la para lhe devolver o copo que , afinal , poderia fazer falta à famosa e poderosa empresa , mas ela já desaparecera na esquina , na garupa de um moto-táxi , em direção à rodoviária e de volta a BH ...

Igomer Brandi / Julho / 2001


OS PUXA-SACOS

O puxa-saquismo é uma praga incorporada ao dia a dia de todas as empresas e instituições públicas ou privadas, que atazana a vida de todo mundo, agride a cultura, o profissionalismo, a ética e a moral. Provoca a inversão de valores e proporciona aos incompetentes a oportunidade de ocuparem cargo e posições que deveriam ser ocupados pelos mais capazes, ou melhor preparados. Se arte ou profissão, esta desgraça está a merecer atenção especial, e um capítulo a mais nos tratados de relações humanas no trabalho. Para massagear o ego do chefe, e conseguir seus objetivos, o puxa-saco apela para tudo: uísque, queijo, pinga da boa, doces caseiros, carne de sol, passarinhos, com gaiola e tudo, banda de leitoa... Muitas vezes, o puxa-saco encara até longas viagens e grandes despesas, para fazer chegar às mãos do chefe a bagulhada, que considera de melhor agrado.

E assim, o prestimoso e “eficiente” empregado, fica sem lugar quando o chefe sai. Quer sempre saber onde ele foi e como está, quando volta, para poder estar, no retorno, esperando na rodoviária, na estação ou no aeroporto;  telefona se oferecendo para olhar a casa, limpar o jardim, cuidar do cachorro e do passarinho, uma vez  que está inserido na intimidade familiar e profissional do chefe, e considera-se, automaticamente, candidato à primeira promoção que aparecer, e passa a freqüentar gabinetes, e até reuniões, às quais, poucos são convidados, opinando sobre decisões e assuntos com os quais nada tem a ver.

À propósito: um dia passando frente a uma agência bancária no centro da maior cidade do leste mineiro, tive que parar para responder e informar a um transeunte, e sem querer, ouvi dois bancários puxa-sacos conversando, enquanto esperavam o vigilante abrir a porta. Um dizia: “Você está esquecendo que sábado é aniversário do chefe? Precisamos fazer uma lista e comprar um presente pra ele. Mas só que tem que ser uma coisa boa...” Ao que o outro retrucou: “Eu não! Tô fora! Não entro em lista nenhuma. Este ano eu vou dar o meu separado!...”

Não sei o que me segurou e impediu que estrangulasse os dois, ali mesmo, na hora!

Igomer Brandi - Junho / 1991


FUTURO VEREADOR

Há quinze anos longe de Patos de Minas, onde em 1980 inaugurei e gerenciei a agência do Banco Itaú, continuo correspondendo com um amigo que lá deixei. Foi ele a segunda pessoa que conheci, naquela progressista cidade do Alto Parnaíba, depois do gerente do hotel em que me hospedei. Nem bem acabara de chegar já me esperava, na portaria, o Sr. João, candidato ao cargo de vigilante. Pegou no meu pé e só se deu por satisfeito quando teve assegurada a sua vaga. O banco ganhou um “senhor” vigilante, e eu, um amigo para sempre. Amigo mesmo! Companheiro de todas as horas. Tão amigo, que agora, por ocasião da apuração e resultado das eleições para vereador, foi a ele que escrevi, em primeiro lugar, para desabafar e desafogar as mágoas, com tão grande decepção que as urnas me reservaram. E ele respondeu minha carta nos seguintes termos, que, devidamente autorizado, transcrevo hoje, aqui e agora, para vocês, pois tal preciosidade, saída de forma espontânea, de uma alma simples e boa, como a do meu amigo Sô João, não pode ficar esquecida, mofando e amarelando, no fundo de uma gaveta. Vamos lá...

Recebi seu cartão e o qual passo a agradecer-lhe, e também, sua propaganda eleitoral, número 13.610, e seu bilhete de apenas 150 votos. Olha, amigo, você com estes cargos todos, que envolve muitos e muitos eleitores, e ter só estes votos, é sinal que o povo não sabe votar. O povo é simplesmente interesseiros e corruptos, a política é igual à mulher grávida: só depois que nasce é que se conhece o resultado, a urna é idêntica: depois de aberta, é que se sabe o resultado. Caro amigo. Você com esse cartel todo teve 150 votos, aqui em Patos, foi eleito o Sr. Tito Frederico, olha só o cartel da pessoa... Só teve escola oito meses e teve nas urnas 1700 e lá vai pedrada de votos! E olha: teve engenheiro, médicos, dentistas e vereadores que se tentaram a reeleger e não conseguiu. E olha, teve o Zizico, do lugarejo do Cabral, que teve 959 votos e não foi eleito por legenda, este eleito tentaram tirar-lho por ser anafeto, o juiz deu ganho de causa ao mesmo e vai ser vereador mesmo. Tente outra vez, faça igual ao presidente dos Estados Unidos: tentou dez vezes e foi presidente nos isteites.

Amigo, tenho até hoje aquele cartão da esportiva guardadinho aqui em casa. Uma hora eu lhe envio a xerox do mesmo para se lembrar do dinheiro que ganhaste, e o Sr. Collor lhe tomou. Aquela turma nossa está todos na boa: o Donizete é advogado e está exercendo a profissão e é fazendeiro também; Zé Marques cada vez mais rico, Bamerindus, Bandeirantes e o Credicopa são os novos bancos por aqui. O bairro Jardim Paulistano é circundado pela uma bela avenida Fátima Porto e a avenida JK. Cresceu o bairro, está asfaltado, muito comércio e casas de prostituição, mas só de granfas, e por isto não tem desordens. Larguei a presidência da JÁPAM (Associação de Moradores do Bairro) no ano passado. Já estão me propondo a ser candidato na próxima eleição para presidente. Mas vou longe: tudo tem a primeira vez! Vou tentar a vereador. A grana está boa: R$ 3.500,00 mais os cambalachos. São 17 vereadores. Vou tentar, mas vou de ‘João Vigilante’, o que você acha?...”

Achei uma ótima. E até já respondi a carta do meu amigo, oferecendo-me, desde já, para ser seu assessor parlamentar. Por qualquer mil e quinhentos reais eu até me mudo para Patos de Minas, de mala, cuia e samburá... 

Igomer Brandi - Outubro /1996


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